Escrevo esse texto em meu voo de volta a Toronto, pois já não consigo dormir, apesar de ter bebido um bom vinho e ter assistido a um filme tão dispensável, que prefiro nem lembrar o nome. Então. Assisti a O Rei do Show cerca de 2 dias atrás.

O Rei do Show

Algumas sacadas ficaram tão evidentes no decorrer do filme, que não resisti e saquei meu celular durante sua exibição para anotá-las, caso contrário me tornaria refém da minha péssima memória. Sorte que estava na última fileira de assentos, então não me julgue – não atrapalhei nenhum espectador.

Aproveito agora para alertá-lo(a): esse texto contém spoilers. Caso você não tenha assistido ao filme, feche-o agora mesmo ou apenas envie esse link para aquele(a) amigo(a) que você acha que gostaria de lê-lo.

O Rei do Show vai muito além de ser um musical, o que, por si só, já representaria um checkmate. Ele nos dá lições valiosas e, por vezes, esquecidas do mundo do empreendedorismo de raça, de paixão pelo que se faz. Minhas notas aqui elencadas refletem, como sempre, meu ponto de vista e experiências únicas que vivi até então, o que me torna ainda mais receptivo ao seu feedback.

Pois bem. P T Barnum (Hugh Jackman) era claramente insatisfeito com seu trabalho, do qual fora mandado embora em virtude de dificuldades financeiras do seu empregador. É a partir desse momento que focarei minhas observações.

1. Não construa grandes produtos ou serviços sem antes ouvir seu consumidor

Barnum decide iniciar seu próprio negócio após negociação de um empréstimo com o banco da sua cidade. Como vários brasileiros e brasileiras, sua veia empreendedora estava em aparente estado latente até o advento de dificuldades que o colocaram em contato com situações desafiadoras, despertando habilidades e conhecimentos de forma espontânea, assim como frutos de muito aprendizado e pesquisa.

Ele abre um museu de cera. A princípio, grande ideia. Havia capital para isso, assim como um prédio e um funcionário para a bilheteria. Tudo fora arranjado, construído e montado para, só então, ser aberto ao grande público. O grande lançamento.

Primeiro erro.

Foram dias desperdiçados em preparativos, sem mencionar o capital investido. E simplesmente ninguém comprou a ideia. Talvez sequer entenderam do que se tratava. Não houve aquele contato inicial com o mercado, com possíveis compradores e parceiros, colheita de feedbacks. É tão verdade que, no primeiro feedback que o Rei do Show mostra sobre esse novo negócio, acontece o grade a-ha moment.

“Em vez de coisas mortas, você precisa de um espetáculo”. Esse insight deu origem ao pivotamento que deu autenticidade e força ao negócio e, finalmente, vendas e ações certeiras de marketing! Sim, vendas e posicionamento da sua marca e produto não devem, jamais, deixarem de ser foco.

2. Não importa seu orçamento ou tempo, a experiência do seu time deve estar em primeiro lugar sempre.

Você deve lembrar-se que, a partir do momento em que ele decide iniciar o circo, Barnum vai à procura de seu elenco. Ele automaticamente se adapta a detalhes físicos e intelectuais do seu time, procurando, por exemplo, sempre se equiparar à altura deles e delas quando esteve dirigindo-lhes a palavra.

Em toda oportunidade que via, Barnum lhes fazia especiais, sempre fazendo alusão aos seus talentos e habilidades que os tornavam únicos. Mas ser um líder não significa, de forma alguma (e aqui você irá me desculpar a expressão), ser um baba-ovo. Ser líder não significa, tampouco, ser o responsável pela motivação diária do seu time.

Ser líder significa abrir o caminho e retirar as pedras para que os seus liderados e lideradas otimizem ao máximo seu processo de desenvolvimento pessoal e profissional enquanto estejam trabalhando com você, e não para você.

Ao meu ver, isso esteve claro no desenvolvimento da trama, em especial na fala da Lettie Lutz quando disse que Barnum não proveu meramente um trabalho, mas sim uma casa a todas aquelas pessoas únicas. Você se sente em casa no seu trabalho? Ou você, líder, está propiciando uma boa experiência ao seu time?

O Rei do Show

Tudo que dissertei nesse ponto é, na minha opinião, um claro conceito de líder, e não chefe. É o que trará retenção e baixo turn-over do seu time, além de resultados e uma forte cultura organizacional.

3. O sonho não pode morrer. E deve ser celebrado todos os dias.

Muitas vezes nossos times, a incluir corpo diretor, perdem o propósito, valores, a visão, missão, o sonho que estão buscando juntos. Fiquei inclusive um pouco impressionado ao ouvir o relato de um amigo meu falando que recentemente perguntou a uma grande empresa quais eram seus valores e a gerente não soube responder. Oi?

O que acontece é que esses conceitos ficam, por diversas vezes, presos às mentes do topo, aos diretores(as). E aqui mora um dos erros mais perigosos que pequenas e grandes empresas podem cometer. Como exigir dedicação, foco, disciplina, motivação, e o melhor, inovação dos seus co-workers, se o seu time sequer sabe para onde está indo (visão), como devem agir (drivers) e que preceitos seguir (valores)?

Não sei se você notou, mas a primeira música após a abertura do circo fala sobre sonhos. Você já deve saber disso, mas aqui vai o lembrete: compartilhe os seus sonhos com sua equipe, lembre-os pelo que estão trabalhando. E não menos importante – aproveite todas as oportunidades para celebrar as pequenas vitórias em direção a ele. Um grande líder é aquele que consegue inspirar e passar sua visão claramente aos seus seguidores.

4. Quer seu negócio no topo? Diga SIM a parcerias que agreguem valor e NÃO à zona de conforto.

O lançamento do circo foi um sucesso de vendas e pareceu continuar assim por bastante tempo, segundo o roteiro do Rei do Show. Mas Barnum percebeu que estava na hora de começar a agradar uma outra classe de público, a elite. Os protestos aumentavam a cada apresentação e isso serviu para abrir seus olhos para uma excelente oportunidade.

A parceria com Phillip (Zac Efron) injetou não apenas um novo olhar sobre o empreendimento, como também abriu portas para caminhos que Barnum sozinho não teria conseguido em tão pouco tempo. Aqui fica claro o quanto parcerias podem ajudar a acelerar a maturidade de uma empresa, sua internacionalização (go global!) além de agregar mais credibilidade à marca.

A parceria com Phillip também possibilitou, mais adiante no musical, uma inovação que fez o circo fincar raízes no mercado. Aliás, essa é uma péssima expressão, pois, em vez de reconstruir o prédio que fora a ruínas devido ao incêndio, o que custaria um montante sequer disponível naquela sociedade, optou-se pela tenda. Essa decisão foi, de fato, um turning point, pois desvencilhou o empreendimento de barreiras físicas, possibilitando sua escalonabilidade e diferenciação de seus competidores.

É um erro fatal acreditar que você conquistará sua fatia de mercado sem parcerias de valor. Vide a cantora Anitta. Procure-as. Consolide-as.

5. Resiliência é um exercício diário.

Por fim, algo inerente a todo empreendedor é a resiliência. A capacidade de dizer sim a desafios que parecem transpor suas habilidades técnicas, a naturalidade com que se enxerga o fracasso, a incrível habilidade de se manter focado em suas tasks diárias, ainda que as circunstâncias lhe desencorajem. E, acima de tudo, jamais deixar a negativa de hoje atrapalhar a big picture de amanhã.

6. Você pode (e deve) se entusiasmar com seu sucesso, mas jamais deixe isso subir à sua cabeça.

Em uma mistura de comodismo com o fato de ter o seu negócio já bem estruturado e necessidade de se provar cada vez mais como um membro da alta sociedade, Barnum decide expandir seu negócio: no lugar de focar em desenvolver os pontos falhos que ainda existiam dentro da estrutura do seu circo, ele se viu ludibriado com a possibilidade de entregar concertos para a alta sociedade com a cantora de ópera Jenny Lind e, com isso, se inserir cada vez mais dentro da alta sociedade americana.

O Rei do Show

Com a saída de Barnum, o “Rei do Show” deixou claro que o circo não era o mesmo sem ele. Phillip, apesar de ótimo sócio, ainda não estava preparado para liderar a equipe da mesma forma, abrindo o caminho para novos (e maiores) protestos contra o show e desmotivação da equipe.

O mundo do empreendedorismo pode ser encantador. São inúmeras possibilidades e você pode sentir que o céu é o limite. O Rei do Show nos ensina que é preciso manter o foco, sempre buscar se voltar aos motivos que te levaram a empreendedor, a criar o novo e quais são os pilares do seu negócio. Barnum criou o circo para trazer uma melhor qualidade de vida para sua família e se perdeu no meio do caminho saindo para uma turnê que, no fundo, era para alimentar uma busca de vingança à alta sociedade.

Quais são os motivos que te fizeram dar início ao seu negócio? Você já parou para prestar atenção nos pequenos detalhes, na motivação do seu time, em alguns pontos de evolução que ainda precisam ser implementados?

 

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* Este post foi escrito por Felipe Veras e Luana Forlenza, da Next Level Hub.

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